Conferência de Abertura “Do Holocausto Nazi aos Novos Holocaustos”

Publicado em Janeiro 28, 2016 » Sociedade

Conhecer a guerra defender a pazOntem, 27 de janeiro, Dia Internacional em Memória das vítimas do Holocausto, decorreu a sessão inaugural do Projeto “Conhecer a Guerra Defender a Paz”, no Auditório Municipal Augusto Cabrita, no Barreiro.

Durante esta sessão, e 71 anos após a libertação do campo de concentração e extermínio Nazi “Auschwitz”, realizou-se a Conferência de abertura “Do Holocausto Nazi aos Novos Holocaustos”.

Na sessão de abertura participaram Luís Rino, do Agrupamento de Escolas de Casquilhos; Carlos Humberto de Carvalho, Presidente da CMB; Joaquim Raminhos, do Centro de Formação das Escolas do Barreiro e Moita; Pedro Canário, da Cooperativa Cultural Popular Barreirense; e Margarida Chaves, da Rede de Bibliotecas Escolares.

Este Projeto é, para Carlos Humberto de Carvalho, um trabalho que “tem a ver connosco e com a essência da humanidade”. Na sua opinião, as instituições públicas, como é o caso da CMB, “têm a obrigação de fazer a reflexão, de aprofundar o conhecimento à volta das questões da memória, sem branquear a História”.

Recordando a sua experiência enquanto jovem, durante a Guerra Colonial, sublinhou o facto dos jovens de hoje desconhecerem a angústia de um dia poderem ir para a guerra. “É preciso que pensemos que coisas destas podem voltar a acontecer e a marcar gerações”. Para o autarca é importante a reflexão, o debate “para que as pessoas tenham conhecimento de tudo o que se passa no mundo e da instabilidade que pode vir a ter na nossa vida quotidiana”.

Em representação da Cooperativa Cultural Popular Barreirense, Pedro Canário, relembrou a sua infância quando ouvia relatos sobre a Guerra Civil espanhola e, mais tarde, já jovem, a sua geração começou a preparar-se para a Guerra Colonial. “Mudou definitivamente a minha geração. Muitos morreram e outros ficaram com sequelas”. Recordou as guerras no Vietname, nos Balcãs, os vários conflitos na Europa. Na sua opinião, “a corrida aos armamentos coloca-nos hoje a uma distância perigosamente curta de uma nova guerra nuclear. Sonhei, na minha ingenuidade de jovem, que iríamos deixar de falar da guerra. Sol de pouca dura. Cada vez mais os seus tambores soam com mais força. Os meus filhos ouvem-nos por certo, serão os nossos netos acariciados finalmente pela palavra paz? Para que tal seja possível, deixamos o modesto contributo deste Projeto”.

Através da projeção de imagens, Carla Marina, em representação da Comissão Coordenadora do Projeto e da Cooperativa Cultural Popular Barreirense, apresentou o Projeto e o seu fundamento. “Hoje mais do que nunca, importa conhecer as causas, as consequências, os protagonistas e os interesses que justificam o injustificável – a guerra que, ao longo dos tempos, tem devastado a humanidade. Só um conhecimento mais detalhado dos fenómenos de guerra nos permite desenvolver uma verdadeira cultura de paz, condição da própria humanidade”.

Este é um trabalho em rede da Comissão Coordenadora, assente na parceria entre os Agrupamentos de Escolas do Concelho do Barreiro, a Câmara Municipal do Barreiro (CMB), a Cooperativa Cultural Popular Barreirense, o Centro de Formação das Escolas dos Concelhos de Barreiro e Moita e a RBE, Rede de Bibliotecas Escolares.

É um projeto concelhio, destinado às Escolas, à Comunidade Escolar e à Comunidade em geral. Têm características multidisciplinares e intergeracionais, integra ações diversificadas no âmbito da história, filosofia, ciências sociais, literatura, música, cinema, teatro, artes plásticas, e outras.

Ao longo dos dois anos, a sua Comissão Coordenadora pretende realizar uma publicação sobre o Projeto; uma ampla reflexão sobre a temática da Guerra; contribuir para o desenvolvimento de uma cidadania pela Paz e promover uma cultura para a Paz.

“Do Holocausto Nazi aos Novos Holocaustos” foi o tema da Conferência conduzida por Irene Flunser Pimentel,  Mestre e Doutora em História Institucional e Política do Século XX, Prémio Pessoa, 2007.

Helena Pereira, professora de História no Agrupamento de Escolas de Casquilhos moderou a sessão e apresentou a conferencista, autora de várias obras literárias, entre as quais: “Judeus em Portugal durante a Segunda Guerra Mundial. Em Fuga de Hitler e do Holocausto”; “A História da PIDE” e “Salazar, Portugal e o Holocausto”.

Ao longo de cerca de uma hora, Irene Pimentel fez uma interessante abordagem pelas várias etapas da História até se chegar ao Holocausto, um crime sem referência. Esclareceu que só quando a guerra terminou e, após o extermínio de ciganos, de judeus, de crianças, deficientes e opositores políticos, foi criada uma nova nomenclatura ‘o crime contra a humanidade’”.

Contou que quando Hitler chega ao poder, em 1933, começa por mudar o regime, eliminando os opositores políticos colocando-os primeiro em campos de concentração, abolindo todos os outros partidos até o regime alemão se tornar no Partido Nacional Socialista. Criou uma Polícia Política “SS”. São criadas novas leis para retirar a liberdade de expressão, de imprensa, entre outras.

Irene Pimentel recordou que, para os nazis, “havia gente não pertencia à raça humana que se deveriam destruir para manter pura a comunidade alemã”. Em 1935, Hitler começou por retirá-los do espaço público, da Administração Pública, proibidos de frequentar teatros e cinemas. Mais tarde, todos os que eram considerados deficientes eram esterilizados e mortos através de processo de eutanásia estatal em clínicas, até 1939.

Mais tarde, passaram a executar todos os judeus que habitassem em territórios ocupados. Implementa a morte rápida, com gás, de 1941 a 1942, surgindo nessa altura os campos de extermínio, como é exemplo “Auschwitz”.

A conferencista destacou o importante papel do Cônsul Aristides de Sousa Mendes, em Bordéus, na ajuda a milhares de judeus, atribuindo-lhes Vistos para Portugal a todos os que lhe pediram, contrariando ordens de Salazar.

Irene Pimentel fez um paralelismo com a atual crise humanitária dos refugiados e revelou que muitos deles “já estavam em campos de refugiados e quando a ONU cortou as verbas em 50%, eles perceberam que se ficassem ali poderiam morrer à fome e fogem, arriscando tudo”.

Finalizou com um apelo para que “opiniões públicas funcionem e para que enquanto há Democracia exijam aos seus governantes que abram as fronteiras dos seus países. Quem comanda a Europa não aprendeu nada com a História. A maneira de comemorar é resolver este problema de uma forma humana. Para que vale a pena ser humano?”.

 

A encerrar, e no âmbito do Projeto Ler+ Jovem, os alunos do Clube de Teatro da Escola Secundária de Santo André apresentaram várias leituras dramatizadas, com o tema da guerra.

CMB/Zoomonline

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