Setúbal promove teatro de livre criação aberto ao público

Publicado em Julho 14, 2017 » Agenda, Cultura, Destaques

A cidade recebe este fim-de-semana um dos atos da peça de teatro. “Um D. João Português”. O excerto “O mar (e de rosas)” está em palco no cais 3 do porto de Setúbal, com entrada livre desde os seus ensaios, realizados de portas abertas. E apresentado ao público em duas sessões, este sábado e domingo, pelas 21h30.

“Gostei muito da recetividade da Câmara Municipal em disponibilizar este espaço e acolher, sem qualquer dificuldade, esta ideia pioneira”, sublinha Luís Miguel Cintra, dirigente do projeto criado pela Companhia Mascarenhas-Martins.

A ser trabalhada desde o início do ano, a peça “Um D. João Português” passou pelo Montijo e agora Setúbal, seguindo em digressão para Viseu e Guimarães. Sempre com a exibição de um ato distinto em cada cidade.

A sua exibição na íntegra está agendada para janeiro de 2018, em Guimarães. Depois seguem-se apresentações nas mesmas cidades onde decorreram os diferentes ensaios e exibições dos seus atos: Viseu, Setúbal e, finalmente, Montijo.Um modo para que o público possa assistir em primeira mão ao resultado final da peça para a qual está a contribuir ao longo do processo de criação.

Nas palavras de Luís Miguel Cintra, o seu muito português D. João distingue-se“pela originalidade e experimentação”. Nesse sentido a peça “demarca-se não apenas pelo conteúdo, mas também pela forma, com os diferentes atos que a compõem a serem exibidos em diferentes pontos do país”.

“Um D. João Português” é interpretado quase na sua totalidade por atores provenientes do extinto Teatro da Cornucópia, fundado em 1973 por Luís Miguel Cintra e Jorge Silva Melo, “contorna regras precisamente para que todos fiquem a pensar”.

Molière do século XXI percorre o país 

Uma adaptação da tragicomédia clássica “Dom Juan”, de Molière, cuja abordagem a vários temas da cultura contemporânea marcou o século XVII, “Um Dom João Português” mantém um cunho atual da obra de Molière no século XXI. Luís Miguel Cintra revela que a obra constitui um desafio pessoal, “uma obsessão muito antiga, porque combate e desafia vários estigmas e imposições sociais”. Uma versão que, no seu entender recupera a peça original, “fundindo-a com a sua própria visão crítica e com a primeira tradução portuguesa, feita no século XVIII e que incluiu vários cortes e adaptações livres, não por questões de censura, mas apenas para melhorar a aceitação junto do público nacional, bastante mais conservador na época”.

D. João é para o encenador a personagem perfeita para retratar o que considera ser alguma apatia da sociedade atual em refletir, com espírito crítico, sobre ideias que se tornaram convenções nas mais diferentes áreas. “Uma peça de teatro não é um manual de vida ou um guia para a felicidade. É uma ferramenta para nos fazer pensar nos assuntos, para refletir”.

Como nasce uma peça do público para os atores e encenadores 

Em cada uma das quatro cidades o processo criativo de encenação conta com vários momentos de interação com o público, com todos os profissionais, desde o encenador, e elenco à equipa técnica. Através das “informações de todos os que queiram contribuir com opiniões e espírito crítico sobre a história que vai ser contada”, explica Luís Miguel Cintra.

“Acho que o teatro tem de ser experimental e funcionar a partir de projetos pessoais, não formatados”, sublinha o encenador, apontando o dedo a uma fórmula de produção cultural em voga na atualidade, facilitadora de conteúdos de “consumo rápido” e desprovidos de matéria crítica.

O teatro da experiência a abrir caminhos na cultura portuguesa 

A Companhia Mascarenhas-Martins, formada em janeiro de 2016, no Montijo rege-se pelo espírito de incentivo à reflexão. Por isso, Levi Martins, co-fundador da companhia com Maria Mascarenhas-Martins afirma que foi tentada “uma participação cívica através da cultura”, com a ideia de abrir “uma porta de reflexão aos nossos espetadores”.

Uma companhia que não se cinge ao teatro e também coloca o público a pensar também através do cinema, da música e de qualquer outra manifestação artística que assim entenda.

O Setubalense/ZoomOnline

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